terça-feira, 28 de outubro de 2014

Viagens - Por Susana Fonseca

     Entrou em casa ao entardecer e colocou os óculos de sol no baú acobreado, destinado à sua imensa coleção de lunetas escuras com hastes. Ultimamente preferia o modelo dourado, que lhe dava um ar sofisticado, opinião partilhada com a sua assistente de imagem. 
 
      Sentou-se no sofá à procura da melhor posição para se ver livre daquela dor de cabeça, consequência de mais um dia de trabalho a aturar os seus demônios e as suas constantes brincadeiras e discussões, entre decisões desta ou daquela nota ou da introdução de um arranjo musical revolucionário. Uma coisa era garantida, estava orgulhoso do seu estúdio. 
 
      Estendeu o braço e serviu-se de um copo de espumante, que estava ali sempre fresco à espera da chegada dele. Ela também devia estar a chegar, a mulher que tinha conhecido numa noite memorável em que os copos de vinho se tornaram mais do que os dedos das mãos, dedos que se perderam na pele macia e irresistível daquela que lhe toldou os sentidos, ao ponto de pedir socorro e afirmar publicamente que estava apaixonado.
 
      Enquanto mantinha estas lembranças bem presentes, levantou-se para procurar o jornal e saiu para o alpendre. As notícias eram más, por isso desejou irradiar de uma vez por todas os males do mundo, enquanto exorcizava os seus próprios males a pensar nas suas viagens. 
 
      Mal podia esperar que a noite caísse para partir e continuar a cumprir a sua missão. Naquele dia, em particular, queria cravar os dentes e sugar o sangue daqueles dirigentes que não faziam nada pela cidade. Era uma tarefa árdua vê-los ali, desensanguentados, a pedir misericórdia e a prometerem que se os poupasse, iriam zelar melhor pelos destinos do país. Esqueciam-se depressa das promessas, mesmo assim, acabava por dar-lhes sempre mais uma oportunidade.
 
      Teria sempre o prazer dos seus concertos e das suas palavras murmurantes que eram tão mordazes como os seus afiados dentes. Seria eternamente interventivo na sua figura humana, atrás dos seus úteis óculos de sol. E nas noites que passava sem dormir, só a Lua sabia quem ele era.

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Autora: Susana Fonseca
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